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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Pablo Neruda Ode to the Cat

There was something wrong
with the animals:
their tails were too long, and they had
unfortunate heads.
Then they started coming together,
little by little
fitting together to make a landscape,
developing birthmarks, grace, flight.

But the cat,
only the cat
turned out finished,
and proud:
Follow up:
born in a state of total completion,
it sticks to itself and knows exactly what it wants.
Men would like to be fish or fowl,
snakes would rather have wings,
and dogs are would-be lions.
Engineers want to be poets,
flies emulate swallows,
and poets try hard to act like flies.
But the cat
wants nothing more than to be a cat,
and every cat is pure cat
from its whiskers to its tail,
from sixth sense to squirming rat,
from nighttime to its golden eyes.
Nothing hangs together
quite like a cat:
neither flowers nor the moon
have
such consistency.
It's a thing by itself,
like the sun or a topaz,
and the elastic curve of its back,
which is both subtle and confident,
is like the curve of a sailing ship's prow.
The cat's yellow eyes
are the only
slot
for depositing the coins of night.
O little
emperor without a realm,
conqueror without a homeland,
diminutive parlor tiger, nuptial
sultan of heavens
roofed in erotic tiles:
when you pass
in rough weather
and poise
four nimble paws
on the ground,
sniffing,
suspicious
of all earthly things
(because everything
feels filthy
to the cat's immaculate paw),
you claim
the touch of love in the air.
O freelance household
beast, arrogant
vestige of night,
lazy, agile
and strange,
O fathomless cat,
secret police
of human chambers
and badge
of burnished velvet!
Surely there is nothing
enigmatic
in your manner,
maybe you aren't a mystery after all.
You're known to everyone, you belong
to the least mysterious tenant.
Everyone may believe it,
believe they're master,
owner, uncle
or companion
to a cat,
some cat's colleague,
disciple or friend.
But not me.
I'm not a believer.
I don't know a thing about cats.
I know everything else, including life and its archipelago,
seas and unpredictable cities,
plant life,
the pistil and its scandals,
the pluses and minuses of math.
I know the earth's volcanic protrusions
and the crocodile's unreal hide,
the fireman's unseen kindness
and the priest's blue atavism.
But cats I can't figure out.
My mind slides on their indifference.
Their eyes hold ciphers of gold.

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de  cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer. O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento  à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro. Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma  coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite . Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o  terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato. Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo  gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato. Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro