Quando nos olhamos ao espelho, pensamos que a imagem que temos diante de nós é precisa, mas, se nos movermos um milímetro, a imagem muda. Na verdade, estamos a olhar para uma gama infinita de reflexos. Por vezes, o escritor tem de quebrar o espelho pois é do outro lado do espelho que a verdade nos olha fixamente.
Acredito que, apesar das múltiplas possibilidades existentes, a determinação intelectual firme, inabalável e ardente, para, enquanto cidadãos, definirmos a verdade genuína das nossas vidas e sociedades é uma obrigação crucial que recai sobre todos. De facto, é imperativa. Se tal determinação não integrar a nossa visão política, então, não esperemos conseguir restaurar o que está quase perdido para nós a dignidade do homem.
HAROLD PINTER (Londres, 1930/2008), actor, dramaturgo e poeta inglês, na parte final da sua conferência de aceitação do Prémio Nobel da Literatura em 2005, intitulada “Arte, Verdade e Política”.
Foto:Harold Pinter, por Martin Rosenbaum.

A linguagem... é um negócio altamente ambíguo. Muitas vezes, abaixo da palavra falada, está a coisa conhecida e não dita... Você e eu, os personagens que crescem em uma página, na maioria das vezes somos inexpressivos, revelando pouco, não confiáveis, evasivos, obstrutivos, relutantes. Mas é desses atributos que surge uma linguagem. Uma linguagem, repito, onde sob o que é dito, outra coisa está sendo dita...
Existem dois silêncios. Um quando nenhuma palavra é dita. O outro quando talvez uma torrente de linguagem esteja sendo empregada. A fala que ouvimos é uma indicação daquilo que não ouvimos. É uma evitação necessária, uma cortina de fumaça violenta, astuta, angustiada ou zombeteira. Quando o verdadeiro silêncio cai, ainda ficamos com eco, mas estamos mais próximos da nudez. Uma maneira de olhar para a fala é dizer que é um estratagema constante para cobrir a nudez.
Ouvimos muitas vezes aquela frase cansada e suja, "falha de comunicação", e essa frase foi fixada em meu trabalho de forma bastante consistente. Acredito no contrário. Acho que nos comunicamos muito bem, em nosso silêncio, no que não é dito, e que o que acontece é uma evasão contínua, tentativas desesperadas de retaguarda para nos mantermos para nós mesmos. A comunicação é muito alarmante. Entrar na vida de outra pessoa é muito assustador. Revelar aos outros a pobreza dentro de nós é uma possibilidade muito assustadora.
Não estou sugerindo que nenhum personagem em uma peça possa dizer o que de fato quer dizer. De forma alguma. Descobri que invariavelmente chega um momento em que isso acontece, quando ele diz algo, talvez, que nunca disse antes. E onde isso acontece, o que ele diz é irrevogável e nunca pode ser retirado.