MILENA JESENSKÁ.
1896/1944), jornalista, escritora, editora e tradutora checoslovaca, de origem eslovaca. Nascida em Praga, então no Império Austro-Húngaro, viria a morrer no campo de concentração de Ravensbrück, para onde fora deportada por causa das ideias, participação na resistência ao nazismo e ajuda a judeus.
.Excertos de uma carta de Milena Jesenská a Max Brod (*), acerca do medo que Franz Kafka tinha do amor e das suas angústias:
.Ele é incapaz de compreender a coisa mais simples. Já alguma vez foi com ele ao correio? É preciso vê-lo redigir um telegrama e procurar, esticando o pescoço, o postigo que mais lhe convém, é preciso vê-lo andar, sem compreender minimamente o porquê e o como de tudo isso, de um postigo para o outro, acabando por chegar ao que deve ser. É necessário tê-lo visto pagar, pegar no seu dinheiro, contá-lo, descobrir que lhe deram uma coroa a mais, devolvê-la à empregada sentada atrás do postigo. Depois, afasta-se lentamente, contando mais uma vez, e, quando chega ao andar de baixo, ao último degrau, apercebe-se de que, de facto, a coroa que devolveu lhe pertencia. E aí está ele desamparado, apoiando-se ora num pé, ora no noutro, sem saber que fazer. Voltar lá? É difícil com toda aquela multidão lá em cima. “Então esquece”, digo-lhe. Mas ele olha-me com espanto. “Como dizes? Esquecer? Não é o facto de ter perdido uma coroa que o preocupa, mas sim o não estar certo agir daquele modo.
.Como podemos deixar as coisas assim? O incidente absorve-o a tal ponto que não deixa de falar nele. Está muito descontente comigo. E isto repete-se em cada loja, cada restaurante, de cada vez que encontra uma mendiga sob formas diferentes. Uma vez, deu uma moeda de duas coroas a uma mendiga e pediu-lhe troco. Ela respondeu que não tinha. Então, para ali ficámos dois bons minutos, a reflectir sobre o comportamento que convinha adoptar. De súbito, disse-lhe que bem podia deixar-lhe as duas coroas. Mas, mal deu dois passos, mostrou-se arrependido. E este é o mesmo homem que, de certeza me daria entusiástica e imediatamente vinte mil coroas, se lhas pedisse. Mas se lhe pedisse vinte mil e uma coroas e isso nos obrigasse a encontrar um local para arranjar troco e não soubéssemos onde, então interrogar-se-ia seriamente sobre a maneira de resolver o problema dessa coroa que eu não ia receber. A sua atitude inquieta em relação ao dinheiro é a mesma que se verifica perante uma mulher. O mesmo se passa em relação ao seu medo do escritório. Certa vez aconteceu telefonar-lhe, telegrafar-lhe, escrever-lhe, implorar-lhe em nome de Deus que viesse ter comigo por um dia. Supliquei-lhe de joelhos. Precisava muito dele, nessa altura. Não dormiu durante noites a fio, atormentou-se, escreveu-me cartas em que se desvelava mas não veio. Porquê? Não pôde pedir férias. Não, não pôde dizer ao director, a esse mesmo director que admira perdidamente (a sério!) por escrever à máquina tão depressa não lhe pôde dizer que queria vir ver-me. E dizer-lhe outra coisa nova carta a transbordar de espanto como assim? Mentir? Dizer uma mentira ao director? Impossível. Se lhe perguntar porque tinha amado a sua primeira noiva, ele responde: “Ela era tão competente nos negócios”, e fica com uma expressão feliz, iluminada pelo respeito que lhe dedica.
.Não, decididamente, o mundo inteiro é e permanece um enigma para ele. Um segredo místico. Uma tarefa fora do seu alcance e à qual dedica, com a sua ingenuidade comovente, a mais alta estima, por se tratar do mundo daqueles que são bem sucedidos nos negócios. Quando lhe falava do meu marido, que me engana cem vezes por ano e exerce sobre mim e sobre um grande número de mulheres uma espécie de feitiço, o seu rosto expressava o mesmo entusiasmo de quando falava do seu director que tão rapidamente escreve à máquina, o que o torna um ser superior, ou de quando falava da sua companheira, tão “eficiente nos negócios”. Para ele, isto é tudo um universo estranho. Uma pessoa que escreve depressa à máquina, um tipo que tem quatro aventuras ao mesmo tempo, são para ele factos tão incompreensíveis como a coroa deixada à mendiga ou a coroa do correio incompreensíveis porque vivos. Mas Frank não pode viver. Frank não tem a capacidade de viver. Frank nunca se curará. Frank em breve morrerá.
.É verdade que aparentemente todos somos capazes de viver, porque a partir de certo momento nos refugiámos na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção, no pessimismo, ou em qualquer outra coisa. Mas ele não tem em que se refugiar. É absolutamente incapaz de mentir, como é incapaz de se embriagar. Não tem o mais pequeno refúgio, o mais pequeno abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós nos protegemos. É como um homem nu entre pessoas vestidas. E o que ele diz, o que ele vive, nem sequer é a verdade. É um ser puro, decidido a rejeitar todos os artifícios que lhe permitiriam exprimir a vida, a sua beleza ou a sua miséria. E a sua ascese não tem heroísmo algum, o que a torna maior e mais elevada. Todo o “heroísmo” é mentira e cobardia. Não é homem que se sirva da ascese como meio para atingir um fim, é um homem que a sua terrível clarividência, a sua pureza e a sua inaptidão ao compromisso forçam à ascese.
Existem muitas pessoas ponderadas que também não querem comprometer-se. Mas colocam óculos mágicos que as fazem ver tudo diferente da realidade. E assim não têm necessidade de compromisso. Podem, pois, escrever à máquina depressa e ter mulheres. Perante essas pessoas, ele olha-as surpreendido, tal como acontece com essa máquina de escrever e essas mulheres. Nunca compreenderá como as coisas se passam.
Os seus livros são admiráveis. Mas ele é ainda mais admirável...“
(*)citada na edição alemã do livro de Max Brod “Franz Kafka. Eine Biographie” e também em "Milena", Margarete Buber-Neumann, tradução de Maria da Graça Lachaud, Difel, Lisboa, 1988, pp. 67-68, de onde transcrevemos. Este livro, há muito esgotado, não foi reeditado.
Milena Jesenská, em fotografia de autor desconhecido, que apenas se sabe ser anterior a 1938.
.Excertos de uma carta de Milena Jesenská a Max Brod (*), acerca do medo que Franz Kafka tinha do amor e das suas angústias:
.Ele é incapaz de compreender a coisa mais simples. Já alguma vez foi com ele ao correio? É preciso vê-lo redigir um telegrama e procurar, esticando o pescoço, o postigo que mais lhe convém, é preciso vê-lo andar, sem compreender minimamente o porquê e o como de tudo isso, de um postigo para o outro, acabando por chegar ao que deve ser. É necessário tê-lo visto pagar, pegar no seu dinheiro, contá-lo, descobrir que lhe deram uma coroa a mais, devolvê-la à empregada sentada atrás do postigo. Depois, afasta-se lentamente, contando mais uma vez, e, quando chega ao andar de baixo, ao último degrau, apercebe-se de que, de facto, a coroa que devolveu lhe pertencia. E aí está ele desamparado, apoiando-se ora num pé, ora no noutro, sem saber que fazer. Voltar lá? É difícil com toda aquela multidão lá em cima. “Então esquece”, digo-lhe. Mas ele olha-me com espanto. “Como dizes? Esquecer? Não é o facto de ter perdido uma coroa que o preocupa, mas sim o não estar certo agir daquele modo.
.Como podemos deixar as coisas assim? O incidente absorve-o a tal ponto que não deixa de falar nele. Está muito descontente comigo. E isto repete-se em cada loja, cada restaurante, de cada vez que encontra uma mendiga sob formas diferentes. Uma vez, deu uma moeda de duas coroas a uma mendiga e pediu-lhe troco. Ela respondeu que não tinha. Então, para ali ficámos dois bons minutos, a reflectir sobre o comportamento que convinha adoptar. De súbito, disse-lhe que bem podia deixar-lhe as duas coroas. Mas, mal deu dois passos, mostrou-se arrependido. E este é o mesmo homem que, de certeza me daria entusiástica e imediatamente vinte mil coroas, se lhas pedisse. Mas se lhe pedisse vinte mil e uma coroas e isso nos obrigasse a encontrar um local para arranjar troco e não soubéssemos onde, então interrogar-se-ia seriamente sobre a maneira de resolver o problema dessa coroa que eu não ia receber. A sua atitude inquieta em relação ao dinheiro é a mesma que se verifica perante uma mulher. O mesmo se passa em relação ao seu medo do escritório. Certa vez aconteceu telefonar-lhe, telegrafar-lhe, escrever-lhe, implorar-lhe em nome de Deus que viesse ter comigo por um dia. Supliquei-lhe de joelhos. Precisava muito dele, nessa altura. Não dormiu durante noites a fio, atormentou-se, escreveu-me cartas em que se desvelava mas não veio. Porquê? Não pôde pedir férias. Não, não pôde dizer ao director, a esse mesmo director que admira perdidamente (a sério!) por escrever à máquina tão depressa não lhe pôde dizer que queria vir ver-me. E dizer-lhe outra coisa nova carta a transbordar de espanto como assim? Mentir? Dizer uma mentira ao director? Impossível. Se lhe perguntar porque tinha amado a sua primeira noiva, ele responde: “Ela era tão competente nos negócios”, e fica com uma expressão feliz, iluminada pelo respeito que lhe dedica.
.Não, decididamente, o mundo inteiro é e permanece um enigma para ele. Um segredo místico. Uma tarefa fora do seu alcance e à qual dedica, com a sua ingenuidade comovente, a mais alta estima, por se tratar do mundo daqueles que são bem sucedidos nos negócios. Quando lhe falava do meu marido, que me engana cem vezes por ano e exerce sobre mim e sobre um grande número de mulheres uma espécie de feitiço, o seu rosto expressava o mesmo entusiasmo de quando falava do seu director que tão rapidamente escreve à máquina, o que o torna um ser superior, ou de quando falava da sua companheira, tão “eficiente nos negócios”. Para ele, isto é tudo um universo estranho. Uma pessoa que escreve depressa à máquina, um tipo que tem quatro aventuras ao mesmo tempo, são para ele factos tão incompreensíveis como a coroa deixada à mendiga ou a coroa do correio incompreensíveis porque vivos. Mas Frank não pode viver. Frank não tem a capacidade de viver. Frank nunca se curará. Frank em breve morrerá.
.É verdade que aparentemente todos somos capazes de viver, porque a partir de certo momento nos refugiámos na mentira, na cegueira, no entusiasmo, no optimismo, numa convicção, no pessimismo, ou em qualquer outra coisa. Mas ele não tem em que se refugiar. É absolutamente incapaz de mentir, como é incapaz de se embriagar. Não tem o mais pequeno refúgio, o mais pequeno abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós nos protegemos. É como um homem nu entre pessoas vestidas. E o que ele diz, o que ele vive, nem sequer é a verdade. É um ser puro, decidido a rejeitar todos os artifícios que lhe permitiriam exprimir a vida, a sua beleza ou a sua miséria. E a sua ascese não tem heroísmo algum, o que a torna maior e mais elevada. Todo o “heroísmo” é mentira e cobardia. Não é homem que se sirva da ascese como meio para atingir um fim, é um homem que a sua terrível clarividência, a sua pureza e a sua inaptidão ao compromisso forçam à ascese.
Existem muitas pessoas ponderadas que também não querem comprometer-se. Mas colocam óculos mágicos que as fazem ver tudo diferente da realidade. E assim não têm necessidade de compromisso. Podem, pois, escrever à máquina depressa e ter mulheres. Perante essas pessoas, ele olha-as surpreendido, tal como acontece com essa máquina de escrever e essas mulheres. Nunca compreenderá como as coisas se passam.
Os seus livros são admiráveis. Mas ele é ainda mais admirável...“
(*)citada na edição alemã do livro de Max Brod “Franz Kafka. Eine Biographie” e também em "Milena", Margarete Buber-Neumann, tradução de Maria da Graça Lachaud, Difel, Lisboa, 1988, pp. 67-68, de onde transcrevemos. Este livro, há muito esgotado, não foi reeditado.
Milena Jesenská, em fotografia de autor desconhecido, que apenas se sabe ser anterior a 1938.
